segunda-feira, novembro 06, 2006

Vida Submarina

Da última vez tentei me proteger embrulhando meu coração em papel celofane, e imaginando que isso seria capaz de manter afastadas todas as inquietudes da vida. O celofane resistiu por pouco tempo e logo começou a mostrar infiltrações que inundaram meu peito. Não foi dificil perceber que se quisesse me proteger precisaria de uma camada mais espessa e resistente que, por sí só, me sufocaria mais que a própria inundação existente. Decidi então conviver com a inundação, aprendendo a lidar de forma diferente com os sentimentos que sempre me massacraram.

Não tem sido uma tarefa fácil, mas tem se mostrado infinitamente mais eficaz que as tentativas anteriores e a cada dia que passa sinto-me mais confortável em baixo d'água, aprendendo a viver sem o oxigênio que antes parecia tão indispensável.

Não pretendo me manter seco, mas sim aprender a levar a vida mesmo estando completamente submerso, mesmo não conseguindo respirar. Antes me sentiria sufocado caso estivesse em situação semelhante. Hoje ainda que cause bastante incomodo, me sinto como um mergulhador que aprecia as belezas do fundo dos oceanos mesmo sabendo que o cilidro em suas costas só lhe garante vida por mais alguns momentos.

É na certeza de que a vida lá em baixo pode ser tão bela quanto na superfície que sigo em frente, disposto a não mais construir barreiras ao inevitável, e a encarar de forma tranquila e paciente a inundação que ainda existe, na esperança de que o cilindro de oxigênio que me garante a vida esteja sempre cheio.